O gigolô das palavras.

Publicado: 27 de abril de 2009 em Textos

Luís Fernando Veríssimo

Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão !”). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.

Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover… Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.

Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.

Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa ! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.

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Comentários
  1. Kevin disse:

    O texto mostra a importância da linguagem como forma de comunicação. Mas é na forma culta que podemos notar a importância da gramática, há coisas que são mínimas, porém devemos saber para evitar erros absurdos.
    Um texto pode não estar corretamente escrito (de acordo com as normas gramaticais), mas isso não quer dizer que não seja compreendido “escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo”, se pudermos escrever certo e claro é o melhor a ser feito.

    Logo no inicio do texto o Luiz Fernando Veríssimo diz às crianças “vocês tem certeza de que não pegaram o Veríssimo errado?” já dizendo que ele não é a pessoa mais aconselhada a dar uma entrevista para um trabalho de escola. Deixa claro sua implicância com a gramática, mas mostra o quanto ela é indispensável, mesmo porque ele ganha a vida com as palavras, apesar de não ser íntimo da mesma, “uso as que eu conheço as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras”. O autor diz claramente que para dominar as palavras é preciso muito treino com a escrita e com a leitura, para que haja certa intimidade com a gramática, “a gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”. Não se devem escrever palavras difíceis e sim as que você conhece, evitando erros e falta de compreensão.

  2. Andréia disse:

    EU me lembrou desse Texto ano passado com professor Alexandre !!
    As discursoes sobre esse textos foram de mais !!
    Mas e claro com o texto de quem de Luís Fernando Veríssimo so podia dar nisso !! Eu como leitura recomendo tbm outros textos como “SEXA ” do msm autor !!
    Obs.: Acho que o dono desse blog poderia reselvar um pedacinho pra esse texto !!
    bjs
    bye *-*

  3. Nelia disse:

    Sou principiante no estudo de Língua Portuguesa, mas adorei essas colocações e estou encantada com tanta sabedoria,com tanta franqueza,com tanto conhecimento e bom humor. Assim fica mais fácil trabalhar com as palavras,pois elas ganham vida e seguem faceiras. Demais!!!

  4. Amei ler este texto do Verissimo, pois também não tenho muita intimidade com as palavras e muito menos com a Gramática.
    Logo, o contato com esse texto nos deixa relaxado, no sentido de produzir texto. Porque o que importa em um texto é a clareza da mensagem.

  5. Paloma disse:

    Esse texto é realmente íncrivel. Luís Fernanado Veríssimo consegue envolver e entreter de uma forma única!
    Como já disse nossa amiga Andréia logo acima, sobre um tal professor Alexandre, que suponho seja o mesmo com o qual estudei no primeiro semestre do curso de Letras na Figuinha -Introdução à Literatura, suas aulas eram explêndidas. Sua forma de abordar os assuntos nos deixava com o sentimento de ” – nossa como não tinha visto isso AI antes?”.

  6. Dayanne disse:

    Realmente este texto é um máximo a prof Jussara da escola parreira mandaram os alunos lêem para podermos fazer a prova.tomara q de tdo certo.abraços

  7. Maria Edna disse:

    REALMENTE MEU CARO AMIGO FERNANDINHO É O MELHOR, ELE NAO MIM CONHECEU, MAS SEI TU DO SOBRE ELE, ENTAO MIM TORNO ÍNTIMA ,SEMPRE FICO MARAVILHADA COM SUAS COLOCAÇÕES, QUEM SABE UM DIA MIM NIVELO A ELE, APESAR DE SER QUASE IMPOSSÍVEL, MAS O IMPOSSÍVEL NAO EXISTE ENTAO NAO É IMPOSSÍVEL.

  8. [...] A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda. * Completo no Conhecimento é Tudo [...]

  9. Nem da área sou, mas achei o Gigolô das Palavras simplesmente genial.

  10. flaviasol19@hotmail.com disse:

    Flávia da Foneca Silva – Rio de Janeiro.
    Sou pricipiante no curso de letras, e já pensei várias vezes em desistir, devido as cobranças que a língua portuguesa nos oferece. O texto serviu como incentivo para não desistir.

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